O que não me torna um artista? Hoje, ainda impactado pelo documentário sobre o David Bowie, me coloco em oposição a ele. Quase arrogante nessa colocação, me sinto no lado oposto a um ídolo que nunca foi meu, mas que tenho uma admiração inigualável por tudo que soube sobre ele até hoje. Todas as suas fases, mudanças, Camaleão, como era chamado, sempre me pareceu muito. Artista completo, pintor, ator, músico, performer. Tudo o que eu nunca fui e nem quis ser. Ou não pensei em ser. Ou nem sabia que poderia ser.
Continuo sem ser e sem querer ser, sem querer, não por não querer, por não saber. Hoje, tive um pequeno vislumbre do que foi sua obra, sua vida, o que esse curto documentário de pouco mais de duas horas me mostrou. Lembrei do filme “Quero ser John Malkovich". Como se pudesse entrar um pouco na mente do Bowie e ver em flashes escolhidos, partes da sua genialidade. E pensei. Muito. Sobre a minha vida, a minha genialidade reprimida. Meus medos, meus anseios, minhas vontades. Tudo que não fui e não sou e não serei. E não, não é sobre tristeza que escrevo isso, é sobre admiração e entendimento de mundo. Talvez seja uma forma de ver como eu sei que seria, se não fossem a vida, as escolhas e os caminhos.
Daqui de fora da cabeça dele, tudo parece certo e planejado. Orquestrado. Uma vida moldada na força, na certeza de não ter certeza, como todo artista. Lutar contra tudo, ser o contrário do esperado, quando o esperado é simplesmente não se expressar. Nesse lugar, não fui o Bowie, nunca seria um Bowie, porque só existe um. Nem quis. Nunca. Nem conhecia direito com essa leve profundidade, mas sei de mim.
Sei? Não importa. Não é sobre saber e sim sobre reclamar. Reclamar de mim, do que não fui e não serei, mas finjo que teria alguma chance. Alguma mudança poderia me tornar o escritor que sempre quis ser, o rockstar que sonhei aos 15 anos, o desenhista quando assisti “Encontro Marcado”, o ator e cineasta nascente em um apartamento em Deodoro, com os amigos que também não se tornaram músicos, atores, escritores… Todos trabalhadores, como eu. Como muitos. Eram sonhos e sonhos são isso, pensamentos incompletos não compartilhados. quando compartilhados se tornam Arte. E minha arte talvez fossem sonhos fortes demais para serem realizados, ou não. Não importa. O sonho do artista se completa na obra e minha obra é minha vida. Imperfeita como meus desenhos, incompletas como minhas estórias, sem rosto como minha atuação no dia a dia. A máscara é a Arte, viver é a arte. Quase perdi, acontece, permanece, cresce e subjuga tudo. Ah, se eu fosse. Não. Não fui e não seria. E é assim que é.
Das coisas que trouxe pra mim, agora, assim que terminei de assistir, tenho a reclamação. Reclamo mesmo. Pela vida não ter me possibilitado. Arte é para quem pode, para quem tem, para quem acredita e fecha os olhos. Bowie acabou de me ensinar isso de um jeito estranho e misterioso. A vida não me possibilitou? Eu que fosse atrás. Eu que lute, como dizem. Nada é de mão beijada, será? Reclamo e grito sozinho no meu quarto. Choro, peço, imploro a sociedade para me enxergar como artista mesmo sem mostrar minha arte, e não importa. Porque a arte se realiza, mesmo escondida dentro de mim. Eu sou a minha Arte. Calada, cínica, cheia de imperfeições que me impossibilitam de exibir, de me exibir. Me mostro, me exibo escondido. Passeando pelos meus meandros como se fosse verdade, mesmo sem ser. Culpo tudo e todos. Há motivo para sorrir com isso tudo. Como um palhaço que nem sei como ser. Que nem sei se ri, mas rio. Rio. De onde vim e quase nunca saí. mas fiz o que quis, dentro do que me foi possível. Confuso, desconexo, é o que sou. Poeta, músico, sonhador. espero, peço, reclamo. sou eu, e aí? o que isso tem a ver com o Bowie?
Ah, não me pergunte. Fui tocado, manchado, como uma tela suja que não tem utilidade, mas é Arte. Enquanto está lá. Parada, sendo observada. Sem técnica, sem medo, sem alma. Apenas movimento em busca, e a busca é caminho. E caminho é sonho. A realidade bate a porta, grita nos aplicativos de banco, na geladeira, nos grupos de whatsapp. mas o sonho, ele é infinito, sem bordas, como o universo. É tudo que existe. Sonhar dentro da cabeça de um gênio contempla.Estou inebriado de Bowie e talvez isso baste, por vezes. Não sempre. Pego o violão, ligo a câmera, me mostro em poucos minutos em alguma rede social e é isso que sou, e está tudo bem, ou não. Quero mais sempre. E não quero. Não importa. Quem me fez, os átomos que me compõe, os microrganismos que controlam meu humor, tudo que sou é Arte, antes de tudo. Arte vista, compartilhada enquanto vida. O que assisti hoje me impactou como uma flor cultivada na microgravidade da ISS. como a rosa do Pequeno Príncipe, que quer ser amada, e é amada, e não se importa com o amor. Porque o amor é ela, e tudo a sua volta. Astronauta, cosmonauta, alta! gritando, vivendo.
O que eu sei é que reclamo por não ser, mas isso é o que me me faz ser. Será que era isso que Shakespeare queria dizer? Possivelmente não. Mas como sempre, não importa. Importa o movimento, a mudança, a frase, essa palavra escrita despejada em um papel de mentira feita de impulsos elétricos e magnetismo. Como no cérebro, como a vida é. Hoje, pelas palavras de Bowie, entendi um pouco mais sobre mim. Principalmente que não preciso ser para ser. Só é preciso ser que sou. A vida não é Arte, mas viver é Arte. A vida é o que temos. E o que fazemos dela não importa, desde que o que se quer é simplesmente ser. Não me sinto fraco, talvez pela idade. Mas sou fraco, talvez pela idade. Não me sinto triste, nem feliz. Me sinto. Em muitos anos não me sentia. Coisas acontecem e mudam alguma coisa dentro. Entender não é o que faz diferença. Viver é diferente. Viver é mágico. É o sonho. E a Arte nasce do sonho. Mesmo que esse sonho esteja bem guardado, dentro da mente. Em universos paralelos, ou em um gênio, que realizou tanto e em seus últimos momentos, estava realizando. Vivendo e amando.
Vou reclamar, sempre, e vou ser sempre grato. Pelos neurônios, pelos impulsos elétricos, pelos fótons, pelas moléculas de ar, pelas ondas, pelos campos quânticos que possibilitam experienciar a vida, minha e de um dos artistas mais enigmáticos, corajosos e inventivos que passaram pela vida moderna. Bowie é incrível, mas mais que gênio, ele é todos nós. Porque mais do que Arte, ele cria vida dentro de quem quer se sentir vivo. Obrigado novamente. Vamos dançar!